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Maravilhosa Graça

       - Mas você já conhece a graça de Jesus! Vai abandoná-la? - indagou meu amigo.    Naquele momento não pude entender a profundidade da pergunta, mas o tempo foi passando e a tal reverberou na alma, até o momento em que fui apanhado pela misericórdia de Deus para abandonar as rédeas da religião e tomar o jugo leve e suave Daquele que me salvou.      "Pois pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus, não por obras, para que ninguém se glorie." Assim, afirma a carta de Paulo aos Efésios. Não seria muito mais fácil repousar sobre esse presente e descansar? E por que é tão difícil aceitá-la? A resposta é simples: abraçá-la é desmerecer por completo todo mérito humano, é eliminar qualquer possibilidade de participação neste processo, mas a criatura se esforça em vão para ser um acionista e lucrar com seu trabalho.      Todo problema reside na soberba do ego inflamado. Isto acontecia com os farise...

Terra abençoada

Escanchado em meu alazão  Pelas veredas saí garimpando Olhos sedentos, voz entoando Cada canto desse meu rincão  Se estava sonhando ou acordado Ia juntando no alforge, em meu afã Drummond, Milton, Cordel  Euclides, Sivuca, Noel Patativa, Vinícius, Djavan Eita, que país arretado! O sabiá do Dias em meu ombro pousou enquanto cantava, mais relíquias eu via Caymmi, Elis, Machado, quanta alegria! Matizes de encanto, um show! Riquezas que não abdico Cabral, Ivan, Caetano, Tarsila Francis, Edu, Bilac, Heitor, Gil É um espetáculo esse Brasil! Do Gonzaga, do Tom e do Villa Do Ary, do Rosa, da Cecília e do Chico. Só aqui tem Lobato e Iracema mugunzá, caruru, vatapá  tucupi, dendê, açaí, tacacá Amazonas, saudade, Ipanema Lugar onde apoita a felicidade. Apiei o cavalo e fiz uma prece não pude continuar a jornada De lágrimas, a camisa encharcada, Será que tudo isso a gente merece? Disse-me Deus: é minha bondade!

Escafandrista

     Muito além de cumprir minhas atribuições profissionais na instituição, hasteando a bandeira da cultura, convicto do meu papel como educador, imergi no Centro Universitário São Lucas, de Ji-Paraná, Rondônia, com as turmas de Teoria Geral do Direito, Direito de Família, Português Jurídico, Hermenêutica Jurídica e Prática Forense, nas águas escaldantes da beleza, e juntos fomos colhendo as ostras que guarneciam as pérolas da música e literatura. Antes de mergulharmos, avisei aos marujos: - Passaremos o primeiro semestre de 2025 mergulhados, mas fiquem tranquilos, a lanterna da arte iluminará nosso caminho. O tempo foi passando e alguns abandonaram a missão, buscando o ar poluído que circula lá fora, os demais permaneceram sustentados pelo oxigênio puro das discussões que eram extraídas das citações apresentadas em sala, culminadas a diversas temáticas desenvolvidas a cada encontro.       Ainda guardo vivo na memória os companheiros ancorados comigo n...

Felisbela

Feliz é a alma daquele que viveu  permeado de amor Bela é a revoada dos tios e primos Que se alvoroçavam  naquela mangueira e ainda se aninham empoleiradas nas minhas retinas tão cheias de saudade Feliz era o momento em que ouvia  o assoviar improvisado de meu avô  Bela performance  compondo sons inusitados que ainda reverberam na alma carente de sua presença  Feliz era ouvir aquela doce voz Bela e quase que inaudível  para receber os mimos  de suas mãos repletas de ternura Feliz era a mesa sempre farta  Bela refeição jamais esquecida ainda posta e convidativa para saciar minhas memórias  Feliz era esta casa encantada Bela construção  adornada de lembranças  interligando três vias rua Machado de Assis à Avenida Belo Horizonte em confluência às veias do coração Feliz, sempre presente Bela, nunca esquecida Felisbela Minha avó querida!

Policarpo

     Hoje o Policarpo me deu o ar de sua graça, mas de seu xará literário, o Quaresma, não tem nada de quixotesco, ostenta apenas o ofício de ceder sua monta. O baita reconheceu logo minha hesitação em desconfiar de sua submissão, mesmo assim apenas murchou as orelhas pardas e partiu a dividir comigo seu mundo.      Marcelo, Ilto e Almiro iam troteando à frente; e enquanto meu companheiro cumpria sua tarefa árdua naquelas veredas, estupefato o admirava pela resiliência em suportar o montador e as pedras que fustigavam seus cascos. Na sela não iam apenas o peso do corpo, as lembranças de meu pai, a saudade de minha mãe, mescladas à alegria de contemplar todo cenário que guarneceria minha família, vinham na garupa, mas o animal não reclamava, seguia firme sua jornada.      No trajeto de volta, em meio à chuva que regia a estreia da aventura, já acostumado com a lida, abocanhou a forrageira, ouviu minhas orações e pareceu ter compreendido o tal ...

Saudade

     "Pássaros urbanos", de Raimundo Fagner, apesar de ter sido lançada em 2014, somente alguns anos depois passamos a apreciar esta pérola do nosso cancioneiro. Digo "passamos" porque a obra foi alvo de inúmeras audições entre minha mãe e eu. Nesses momentos éramos arrebatados pela música, um sentimento avassalador que só pode ser encontrado na esfera da paixão.       Quando a primeira faixa se iniciava, o som das castanholas faziam com que ela erguesse os braços e girando na sala, fosse transportada para o solo espanhol, enquanto eu dividia as atenções entre o violão e a bateria, dando socos e palhetadas no ar. Era nosso transe cultural. Quem flagrasse esse estágio contemplativo pensaria em nos conduzir a um manicômio. Não posso denominar essa comoção de amor. O amor é calmaria, quietude, ternura, paciência, maresia, elo existente entre os alucinados ouvintes em questão. Paixão é loucura, furacão, ausência de senso do ridículo, febre, insanidade, o v...

Sapiência sobejante

      Aboletou-se em meio a uma roda de conversas esparsas e sapecou à queima roupa seu falatório pomposo:      - Disso eu conheço bem, sou cientista, não sei se sabem?!      Dois deles encolheram os ombros, numa mescla de assombro e desorientação, sendo ligeiramente alertados pelos demais:      - Esse é seu Ícaro, o cabra mais sabido da região. Ícaro não sei das quantas... (destrinchou o prenome, sobrenome,  comprido que só o diacho, porque cientista que é cientista deve ostentar pelo menos meio metro de escrivinhatura, firmada na força da proparoxítona exigida na pronúncia).      Tomou conta da roda e palestrou com os holofotes acesos em pleno meio-dia.       Seu Ícaro era um outdoor ambulante, espalhafatoso, emblemático, rotava sua reluzência por onde passava e sua ignorância nata assumia ares de elegância, vestia-se de uma sabedoria pelega e brilhava sua ostentação fajuta.   ...

Excelso

     Entre uma aula e outra, numa rápida conversa entre professores, a vida me posicionou na carteira de aprendizado e, como aluno, absorvi a lição de casa:      - Meu filho já tem quase dois anos e até hoje dorme em nossa cama – disse um deles, confirmando a tal decisão do casal.        O outro sapecou à queima roupa um tiro certeiro em meu coração:        - O meu dormiu comigo até os sete anos. A Psicologia que se dane, amar demais nunca fez mal a ninguém!      Um átimo de lucidez acertou-me em cheio e o turbilhão de informações tirou-me de cena. Vislumbrei minha mãe em seus benditos excessos: os olhos contemplativos na estrada não cessavam de me esperar e o sono já se esvaía porque o amor protagonizava o momento do reencontro; as preocupações constantes eram despejadas em mim, sem tréguas, avolumadas de um sentimento que me acompanhavam como sombra.      De rep...

Só de butuca!

   Como pode tamanha grandeza ser enclausurada nos templos ou em rótulos que manipulam a manifestação de Tua presença? Tu que és o Criador estás sujeito aos caprichos de tuas criaturas? Precisas registrar Tua chegada quando passas pelo livro ponto dos homens? Qual o motivo desse estica x encolhe, a fim de darem o veredito sobre Tua permanência? Por que muitos insistem em dizer que o Senhor não existe ou é invisível, se Te encontras sempre comigo?     Nos momentos de deleite, debruçado sobre a literatura, Tu ali estás; quando as dissonâncias jazzísticas penetram a audição, acaricias minha alma e dizes, sorrindo: "Também estou aqui, filho!"; no abraço ou choro incontido de um amigo, me aqueces o peito e traduzes tudo em canção, que ecoa convidativo: "Afaga-me, parceiro!"; no olhar amoroso de minha mãe, quantas vezes repousei em Teu colo! Nas quatro paredes, nos momentos de delírio entre os lençóis, quantas vezes vislumbrei Tua ternura estampada nos sussurros da minha ...

Clara

     É claro que Cristo sempre está conosco e como palavra que reverbera em verdade absoluta, garante a gloriosa majestade de sua onipresença. Mesmo que dias sombrios queiram afugentar a claridade emanada de sua doce companhia, é clarividente que jamais estaremos sozinhos.      A clareza de sua bondade invadiu nossas vidas e como um clarão de relâmpago que reluz do Ocidente ao Oriente inundou de alegria toda nossa casa por causa de sua vinda.     De longe a avistávamos, ora em sonhos, ora claramente em pensamentos que a traziam para perto do nosso alcance, mas ainda não podíamos identificar sua chegada clarificada. De repente, como verdade esclarecedora, o ambiente clarificou e pudemos avistá-la clareando nossa vida. Por isso, posso entoar meu clarinete e agradecer ao Senhor por assentar-se conosco junto à clareira e trazer de presente nossa filha, Clara.

Alicerçado na vida

     E m 31 de outubro de 1517, as 95 teses de Martinho Lutero enraizaram-se no coração daqueles que, iluminados pelo divino, compreendiam a necessidade de pisarmos firmes no solo da Reforma Protestante. Na verdade, suas ideias já fervilhavam dentro de muita gente oprimida pelas falácias e abusos romanos e com sua corajosa manifestação fez com que a erupção jorrasse as lavas da esperança.      As "solas" do latim, que em língua portuguesa intensificam o exclusivismo doutrinário saudável, ganharam força e nos libertaram dos tempos tenebrosos de escuridão. "Somente as Escrituras" merecem crédito, não há nenhum acréscimo a fazer, pois em seu bojo estão contidas a essência da vida; "Somente Cristo", o único caminho que pode nos conduzir à salvação; "Somente a graça", desbancando toda audácia meritocrática do homem, reconduzindo-o ao pó da insignificância e enaltecendo o dom gratuito que vem dos céus; "Somente a fé", o meio pelo qual realiza...

Louvor na terra e no céu (in memorian)

     Cantar nunca foi sinônimo de louvar. Quem assim o faz alcança apenas aplausos de um público incapaz de ouvir o som que vem do coração. As cordas vocais não ultrapassam o teto e se desmancham no ar porque entoam sua própria glória.       As formas mais eloquentes de louvor residem no silêncio, é quando a voz embargada empresta à dor uma cantiga sublime que ecoa até os céus. Um choro incontido, vestido de uma gratidão escarlata, soa como solfejos que acariciam os ouvidos do Criador. Assim foi a experiência de Elias quando percebeu que Deus não estava no vento impetuoso que esmiuçava as penhas, nem ao menos no terremoto estrondoso, tão pouco manifestou-se no fogo, mas a realeza reluziu estampada na mansidão e delicadeza.      Louvar implica necessariamente adorar, não é um ato sonoro ou ancorado na afinação. Não há técnicas para sua aprendizagem, apenas disposição em vislumbrar nossa insignificância. Na verdade, quando os olhos se fech...

DELEITE

Com quase dois anos sesteando à sombra dos sons, mesmo sem registros observáveis em papel, a mente continuou fustigando ideias que finalmente resolveram romper esse período de hibernação literária. Essa pausa tem uma explicação: em novembro de 2017, com o álbum “Speaking of now”(2002), do genial guitarrista Pat Metheny, de forma espontânea, deu-se início ao projeto Cola no Som, com postagens semanais no Instagram que, atualmente, já expuseram 23 álbuns.     Minha coleção de discos têm sido o baú das relíquias que compõem o cenário musical. Para que haja um fator surpresa, os episódios são gravados de forma aleatória e depois ouvidos com atenção ao longo de toda semana e só aí vai ao ar.   A cada obra as fichas técnicas repletas de músicos excepcionais entram em cena, hasteando a bandeira do requinte e extremo bom gosto, atingindo em cheio os corações dos seguidores que acolheram o projeto e também respiram música.        ...

LIÇÃO DIVINA

      Neste fim de semana (25 e 26 de junho de 2016), a vida me pregou uma lição: a importância da morte para conscientização da humanidade sobre sua condição de pó.        No auge da existência, aos 32 anos de idade, um infarto fulminante ceifou a jovem Lenice, deixando quatro filhos órfãos. O impacto dilacerante da dor, no primeiro momento, é apenas encarado como crueldade e injustiça, mas há um lado benéfico difícil de ser absorvido, mas que nestas condições adversas forçam os viventes a caírem do egoísmo entronizado, cedendo lugar à fragilidade e uniformização de todos. São nesses momentos de desespero e escuridão que a reflexão acontece como freio para toda nossa pretensão de onipotência. As lágrimas unem-se, os abraços entre parentes e amigos são mais cálidos, espontâneos, demostrando o quanto precisamos uns dos outros e que não há tempo a perder. A saudade também é outra ferramenta usada pelas mãos do Criador, estímulos para trazer ...

ÊXTASE E CONSTERNAÇÃO

Na noite desta quarta-feira, 22 de junho de 2016, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aconteceu a 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Esta declaração de amor a nossa cultura nacional nasceu com o Prêmio Sharp, em 1987, que posteriormente passou a se chamar de Prêmio Tim de Música. Vários artistas brasileiros já foram merecidamente homenageados: Tom Jobim, João Bosco, Noel Rosa, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Dominguinhos, Zé Keti, Jair Rodrigues, Baden Powell, Lulu Santos, Ary Barroso, Gal Costa, Jackson do Pandeiro, Rita Lee, Milton Nascimento, Elis Regina, Gilberto Gil, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Luiz Gonzaga, Elizeth Cardoso, Maysa, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Maria Bethânia e desta feita, retratando a vida e a obra do cantor e compositor Gonzaguinha, que completaria 71 anos neste ano. A célebre noite iniciou-se com o clássico “Com a perna no mundo”, na interpretação inconfundível de Alcione; Ângela Rô Rô e Luiz Melodia arrasaram no palco com “Grito de alerta”;...

ABDUZIDO

           Para pedras parecerem plumas, o processo trabalhoso de mudança se desenrolava com o porta-malas erguido, destilando sons homéricos de cancioneiros da Música Popular Brasileira e inserções jazzísticas que fluíam potentes do meu pioneer.           O ambiente transformou-se em estúdio particular e, por vezes, pista de dança que deixavam a tarde muito mais harmoniosa. Era um olho na lida e outro nos transeuntes que passavam rente à garagem. Caras contorcidas, testas franzidas, narizes tentando alçar voos, lábios cerrados, sussurros incompreensíveis, sibilos denunciando a vontade de abater-me como presa, múltiplos sentimentos avolumavam-se na face rubra dos passantes. Isso não era fruto de uma atitude vingativa, a fim de dar o troco aos infortúnios causados por essa gente que me cerca continuamente com seus massacres sonoros, apenas um convite ao prazer e à degustação.     ...

SOBREVIVENTES

    Naquela tarde fatídica, esgueirando-me da impassividade do Direito e do campo minado que ameaça explodir meus tímpanos já em frangalhos, por uma questão de sobrevivência e necessidade fisiológico-musical, entrincheirei-me na casa do Thael.     Cheguei ofegante, disritmado, buscando oxigênio nos acordes dissonantes de seu violão. Ainda poderia aventurar-me lá pelas bandas do Luciano ou até mesmo uma pausa para ver esmerar as baquetas nervosas do Robismar,  os únicos da cidade capazes de devolver-me o ar.  Sensível e compatriado, sapecou logo à queima roupa três canções da lavra Bosquiana: “Corsário”, “Jade” e  “Quando o amor acontece”. O anfitrião soltou um sorriso ladino e, percebendo que ainda respirava com dificuldade, destilou doses cavalares de Djavan, Chico, Tom, Ivan e Edu. Aos poucos, mergulhamos no mar infinito da Música Popular Brasileira e mais pérolas foram surgindo como antibióticos potentes que expulsavam qualquer vestígio infeccios...

AMOR ETERNO

“Não vai mudar, toda mãe é assim, mãe é o nome do amor”. Todo filho compreende a canção “Dona do horizonte”, uma homenagem de Djavan que se estende a todas elas, fãs incondicionais de suas crias, detentoras de elogios que nos acompanham durante a trajetória da vida. - Nossa, meu filho, que lindo seu desenho! – Em meio a tantos rabiscos indefinidos, só os seus olhos puderam contemplar a tal obra de arte. - Filho, sua voz ficou perfeita nesta canção! – Se há algum erro, é da gravação, sempre serei o seu Sinatra!    Trancava-me no salão, onde durante o dia funcionava um açougue, mas à noite virava meu estúdio improvisado. Enquanto as latas de guardar alimento eram os tons e a caixa, a tesoura no pé esquerdo, o chimbal e o estojo de guardar a acordeon, o bumbo, suportando o show barulhento, dizia, sorrindo:    - Lindo esse som, meu filho, parece uma bateria de verdade! Quando a tristeza ainda resolve rondar a minha porta e abater o meu espírito, lá vem ela...

VITALIDADE DA ALMA NORDESTINA

“...mas quando é dia de festa todo povo do sertão dança para aparar as arestas do coração”, assim menciona Djavan, nos versos de “Vida nordestina”, uma das faixas do seu novo disco autoral: Vidas pra contar. O alagoano tem razão, pude flagrantear o acontecido em Campo Grande, durante esses quase trinta dias que estive por lá. Aos 73 anos de idade, após ter enfrentado duas cirurgias contra uma terrível neoplasia e passar por um tratamento severo, com mais de 30 sessões de quimioterapia e 39 radioterapias, já repousando em sua casa, na peleja com um aparelho desses mais modernos, minha mãe desabafou: - Meu filho, pelo amor de Deus, liga esse bicho, não sei viver sem música! Compreendi-me. Descobri de onde vem minha paixão pela música e literatura (embora já o soubesse). O gene arretado desta cearense me arrebatou ainda em seu ventre. Mal começaram a rugir os primeiros acordes do violão de Yamandu Costa, mesclados à delicadeza sonora que saía do acordeon de Dominguinhos, que, de so...

LIBERTAÇÃO

Todo entanguido, Zé Catinga não podia me ver que rotava seu ofício: poetar o bicho bulia na criação – lua, nuvem, estrela tudo o que é bem longe da riqueza do chão. Era só com a cara pra cima pensando que ninho de palavras é em riba do céu - Malassombro! – abanei a cabeça, assuntando o despropósito. Era topar com o besta fera E ele já se enfiava num jardim: rosa, roseira, roseiral Nunca vi gostar tanto assim de flor! Mas poesia nunca esteve ali. Num alumbramento mentiroso seguia vazio em sua desorientação. Pra poema, só flor de toco tem serventia pilhéria, potoca, perfume de pedra e assombração escanchada na garupa das histórias inventadas, também. Pobre do Zé, vive iludido, sem direção carrega uma ruma de papel e letras mortas sempre com seu diploma desformado. Nunca desinformou a palavra mode deixá-la troncha só anda na lei das regras, feito polícia que de arte não tem rastro nem cheiro. Nunca ouviu a vó Bela empoemar no pé de manga nem ao...