Um passarinho travesso pousou sobre mim e desferiu sua gaiatice: -Olha quem está por aqui, todo pelado, sem um fruto sequer! Permaneci calado, sem dar trela à sua importunação. -Vi que não gostou da minha abordagem. Desculpe, amigo, é que em tantas revoadas por aqui, em meio a tantas árvores mortas neste cemitério, ainda não havia pousado sobre você - continuou a ave. -Pois é - respondi, desiludido. -Hum, tá explicado (bicou-me a ponta da orelha) Na verdade, tem um fruto estranho aqui, bem na curva de seus braços. Os troncos desse lugar nunca me oferecem nada para comer, somente mau humor. Não sei porque ainda insisto em voar por essas bandas. Também, nesse pântano hostil, ensobreado por esta nuvem escura, sem sol, sem água, sem vida, não posso esperar nada mesmo! Prazer, eu sou o Ferreiro da floresta, Araponga, ao seu dispor. Quer que eu cante para afastar sua azedice? Resignado, continuei a suportar suas provocações. -Tá bom, chega de incomodá-lo, vou ali com...
- Mas você já conhece a graça de Jesus! Vai abandoná-la? - indagou meu amigo. Naquele momento não pude entender a profundidade da pergunta, mas o tempo foi passando e a tal reverberou na alma, até o momento em que fui apanhado pela misericórdia de Deus para abandonar as rédeas da religião e tomar o jugo leve e suave Daquele que me salvou. "Pois pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus, não por obras, para que ninguém se glorie." Assim, afirma a carta de Paulo aos Efésios. Não seria muito mais fácil repousar sobre esse presente e descansar? E por que é tão difícil aceitá-la? A resposta é simples: abraçá-la é desmerecer por completo todo mérito humano, é eliminar qualquer possibilidade de participação neste processo, mas a criatura se esforça em vão para ser um acionista e lucrar com seu trabalho. Todo problema reside na soberba do ego inflamado. Isto acontecia com os farise...