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Mostrando postagens de 2012

PAPO CABEÇA

Ontem resolvi organizar meu acervo musical. Do lado esquerdo, um armário recheado de obras jazzísticas, todos trancafiados, catalogados e subdivididos por instrumentos.

DOCE MADRUGADA

Enquanto a cidade, adormecida há muito tempo, arrastava seu sono morrinhento, meu espírito inquieto buscava a companhia dos acordes dissonantes para fazer uma viagem, sem sair da cama, rompendo madrugada adentro.      Por algumas horas vislumbrei o Rio de Janeiro, nas canções de Tom, Chico e Ivan; fervi sem sombrinha no frevo de Edu; os pés, salpicados de suor, roçaram a apoteose do samba, ao som de Leny, Djavan e Paulinho; os quadris cediam ao remelexo dos baiões e xotes que saiam da sanfona de Sivuca; o violão de Dori, soava manso, mesclado à voz de Nana; Joyce e Donato temperavam com salsa e bossa; as notas tronchas do jazz esticavam ainda mais a vontade de permanecer ali, refugiado nos aposentos da música. Sou notívago por natureza. Desde a mais tenra idade já flertava com a noite. Era exatamente nesse horário que meu corpo, tomado por uma energia produtiva, lecionava, lia, escrevia, assistia aos inúmeros filmes, biritava, petiscava e percorria os bares da cidade morena que dese…

INSATISFAÇÃO

Ao longo de quase vinte semanas, o Programa Raul Gil, através do SBT, realizou uma parceria com a Bombril e a Sony Music, promovendo o projeto musical “Mulheres que brilham”, deixando meu sábado com sabores de curiosidade e desconfiança. Algumas intérpretes ousaram levar ao palco canções de artistas renomados da Música Popular Brasileira, tais como Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo, Djavan, Baden Powell, Pixinguinha, Ary Barroso, dentre outros do mesmo nível artístico, mas aos poucos foram sendo eliminadas pelos ilustres jurados: José Messias (crítico musical e escritor), Fran Fortunato (gerente de marketing nacional da Sony), Marcos Maynard (diretor musical), Luís Carlos Maluly (produtor musical) e Dhi Ribeiro (cantora), tendo como parâmetros os critérios de afinação, técnica vocal, domínio de palco e carisma, só não revelaram ao público que o mais importante seria saber sentir o cheiro da carniça a quilômetros de distância para alimentar as futilidades mercadológicas. Disso eu …

MORFOLOGIA NORDESTINA

Na hora do almoço, entre garfadas na merluza, sapecou à queima roupa os termos da morfologia: - Tíbia e fíbula são ossos da parte inferior da perna. Frontal, pariental, temporal e occipital formam a cabeça. O Etmoide é frágil em suas protuberâncias, é o osso do nariz. - Sabia que há 24 ossos na costela e que a coluna é formada por 33? Continuou minha esposa, empolgada com o curso de Farmácia. - O ilíaco une três ossos: ílio, ísquio e pube. Eles formam a bacia. Cinco formam o cóccix. A face superior se articula com a inferior da L5 na coluna vertebral. - Vixi! só conhecia a L 200 (pensei baixinho). Revirei o peixe na boca. A aula continuou: - A vértebra cervical atlas é a primeira da coluna, ela sustenta o pescoço e proporciona o movimento de rotação, além de ser a única que se articula com o occipital do crânio. - Na cóclea há um líquido que vibra, aí a mensagem reverbera no encéfalo, traduzindo o efeito sonoro. Legal demais, né? Encerrou, ofegante. Não entendi nada (respondi na mente). Po…

NO ENCALÇO

Que diacho é esse tal de cunho vernáculo? Rebolou o dicionário no mato Aprumou o passo: Bandeira, zumba, pirituba Cróis, chulipa, rabo de couro Inventividades só minhas Troco por outro nem com açúcar. Suas toscas palavras empoemam Nunca precisou de diploma Para encontrá-las soltas na boca. A poesia esteve sempre ali Rude, intacta, pronta Besta quem a procura Em outro canto. Nesse chão adormecido Não há literato Padre, juiz ou político renomado Que encubram seu rastro. Agostinho é poeta nato Só não atina que nesse atalho Sigo seu compasso Admirado.

MOAGE

Palavra que adoça a boca Destila meu sorriso Torpor de espírito Tatuagem que ninguém vê Marcada por dentro Encharcada no prazer No rebojo da saudade.
Enrolada nos beijus Mergulhada na moqueca Ensopada no guisado Na farinha ou no jabá No remelexo do baião De dois em dois Sempre enche meu papo.
Empotocada, empilheirada Debruçada no pé de manga Ancorada no leito do rio Empoeirada nas alpercatas Esbanjando sua elegância Vejo sua cara avermelhada Cheia de graça.
Despi o Aurélio todo E nada de encontrar Algo mais precioso que seu nome Presença bendita Herança divina Sopro de vida que acaricia a alma Moage abençoada!

ENCARVALHADO

Sou riso frouxo na noite infinda
enlaçado no descompasso
com o eito
na vida em prumo.
O ócio me bolina todo
encena minhas verdades
revela o contentamento
de andar pelo vento, solto
sem rumo.

Escanchado na garupa, apenas
poemas empoeirados
acordes robustos
de jazz.
Álbum de retratos
repleto de pilhérias
sonhos que ainda trago
hermeticamente enclausurados
preso aos meus pés.

O resto é todo enfado
rotina acortinada de mofo
roupa tosca
embolorada.
Coarando no balaústre caiado
troncho no chão mole
onde não ouso repousar
meu pranto
minha toada. Não me encontram em qualquer canto
não me encaram em qualquer beco
difícil desvendar meu rastro
obtuso e esguio.
Sigo envelhecido
poitado na chuva, apurando