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Policarpo

     Hoje o Policarpo me deu o ar de sua graça, mas de seu xará literário, o Quaresma, não tem nada de quixotesco, ostenta apenas o ofício de ceder sua monta. O baita reconheceu logo minha hesitação em desconfiar de sua submissão, mesmo assim apenas murchou as orelhas pardas e partiu a dividir comigo seu mundo.
     Marcelo, Ilto e Almiro iam troteando à frente; e enquanto meu companheiro cumpria sua tarefa árdua naquelas veredas, estupefato o admirava pela resiliência em suportar o montador e as pedras que fustigavam seus cascos. Na sela não iam apenas o peso do corpo, as lembranças de meu pai, a saudade de minha mãe, mescladas à alegria de contemplar todo cenário que guarneceria minha família, vinham na garupa, mas o animal não reclamava, seguia firme sua jornada.
     No trajeto de volta, em meio à chuva que regia a estreia da aventura, já acostumado com a lida, abocanhou a forrageira, ouviu minhas orações e pareceu ter compreendido o tal gesto, erguendo a cabeça e retomando sua missão cerimoniosa.
     Ao chegarmos no curral, vislumbrei que o bicho não tem nada de burro, fez-me compreender os ensinamentos de Jesus sobre a mansidão: a qualquer momento poderia ter demonstrado toda sua força e me lançado fora de seus arreios, mas permaneceu resguardado em sua cordialidade.
     Os apetrechos e eu aliviamos seu espinhaço, mas ele acenou com uma zurrada, permitindo que minha gratidão continuasse escanchada em seus lombos.

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