Pular para o conteúdo principal

REMOVENDO AS ESCAMAS

    Que sentindo tem acordar todos os dias? Qual a graça de viver nesse mundo? Esses são alguns dos questionamentos que têm feito as pessoas perderem algumas características peculiares de humanos, deixando os sentidos e sentimentos amortizados numa atmosfera de puro desencanto pela vida, tornando os dias da existência numa velha roupa desbotada pelo tempo.
     O desassossego tem sido o maestro do século XXI, a cadência rítmica que rege a pós-modernidade é a pressa agonizante da busca frenética pelo sucesso e nesse compasso febril as almas vão se enferrujando, desprendendo-se do sonho de Deus: a contemplação de sua criação e o propósito de adorá-lo. As famílias estão esfaceladas e já não podem realizar suas refeições com todos os membros unidos, pois a televisão, o computador e outros aparatos tornaram-se agregados a esse convívio, muito mais importantes que os laços sanguíneos, roubando a cena da comunhão. Os elementos da natureza já não fazem a menor diferença, tornaram-se comuns demais para serem apreciados. Por que motivo admirar o entardecer, andar descalço sobre as areias da praia, vislumbrar a lua cheia e todo seu mistério, se todas as noites ela está ali? Tomar um banho de chuva e apreciar o canto dos pássaros, sentir o frescor do vento desarrumando os cabelos, notar a beleza dos beija-flores e todo seu caso de amor com elas, tudo isso não passa de uma tremenda perca de tempo. Há mais coisas para se fazer, terras para conquistar, cartões de crédito para adquirir, carros importados para comprar, academias para modelar o corpo, viagens para realizar. O arco-íris que deixe para surgir outro dia, hoje não há tempo de contemplá-lo e as borboletas que aterrizem em outro local, agora os ombros não podem servir-lhes de pouso. Se Deus quiser um pouco de atenção terá que esperar um outro momento.
     Se todas essas coisas evidentes são esquecidas, quem dirá o sacrifício de Jesus na cruz do calvário! A humanidade está cega, tateando os muros caiados da existência, andando de forma trôpega, cambaleando pelas veredas da indiferença. A insensibilidade é o tempero que está sendo despejado nos pratos atuais, uma comida insossa que empapuça o desejo de se alimentar. Para alguns, a morte é a única fuga para escapar do ordinário.
     Só há uma forma de fazer os olhos voltarem a brilhar, lançando as escamas ao chão: aceitando a Cristo como Salvador da sua vida. Essa atitude traz renovação, vontade de respirar o eterno, desejo de soltar o riso frouxo da pura alegria, derretendo o gelo do coração e perfumando os dias. Com essa companhia gloriosa do Senhor, o relógio trabalha compassadamente, os relacionamentos são estreitados pela força do amor, as palavras adoçam a boca, a bússola volta a mostrar a direção certa, o fim do novelo, o céu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOBREVIVENTES

Naquela tarde fatídica, esgueirando-me da impassividade do Direito e do campo minado que ameaça explodir meus tímpanos já em frangalhos, por uma questão de sobrevivência e necessidade fisiológico-musical, entrincheirei-me na casa do Thael.     Cheguei ofegante, disritmado, buscando oxigênio nos acordes dissonantes de seu violão. Ainda poderia aventurar-me lá pelas bandas do Luciano ou até mesmo uma pausa para ver esmerar as baquetas nervosas do Robismar, os únicos da cidade capazes de devolver-me o ar. Sensível e compatriado, sapecou logo à queima roupa três canções da lavra Bosquiana: “Corsário”, “Jade” e  “Quando o amor acontece”. O anfitrião soltou um sorriso ladino e, percebendo que ainda respirava com dificuldade, destilou doses cavalares de Djavan, Chico, Tom, Ivan e Edu. Aos poucos, mergulhamos no mar infinito da Música Popular Brasileira e mais pérolas foram surgindo como antibióticos potentes que expulsavam qualquer vestígio infeccioso.     Papos culturais foram estreitando…

ABDUZIDO

Para pedras parecerem plumas, o processo trabalhoso de mudança se desenrolava com o porta-malas erguido, destilando sons homéricos de cancioneiros da Música Popular Brasileira e inserções jazzísticas que fluíam potentes do meu pioneer.           O ambiente transformou-se em estúdio particular e, por vezes, pista de dança que deixavam a tarde muito mais harmoniosa. Era um olho na lida e outro nos transeuntes que passavam rente à garagem. Caras contorcidas, testas franzidas, narizes tentando alçar voos, lábios cerrados, sussurros incompreensíveis, sibilos denunciando a vontade de abater-me como presa, múltiplos sentimentos avolumavam-se na face rubra dos passantes. Isso não era fruto de uma atitude vingativa, a fim de dar o troco aos infortúnios causados por essa gente que me cerca continuamente com seus massacres sonoros, apenas um convite ao prazer e à degustação.             De repente, o pintor surgiu para continuar seu trabalho. Parou por alguns minutos, coçou parte da ca…

VITALIDADE DA ALMA NORDESTINA

“...mas quando é dia de festa todo povo do sertão dança para aparar as arestas do coração”, assim menciona Djavan, nos versos de “Vida nordestina”, uma das faixas do seu novo disco autoral: Vidas pra contar. O alagoano tem razão, pude flagrantear o acontecido em Campo Grande, durante esses quase trinta dias que estive por lá. Aos 73 anos de idade, após ter enfrentado duas cirurgias contra uma terrível neoplasia e passar por um tratamento severo, com mais de 30 sessões de quimioterapia e 39 radioterapias, já repousando em sua casa, na peleja com um aparelho desses mais modernos, minha mãe desabafou: - Meu filho, pelo amor de Deus, liga esse bicho, não sei viver sem música! Compreendi-me. Descobri de onde vem minha paixão pela música e literatura (embora já o soubesse). O gene arretado desta cearense me arrebatou ainda em seu ventre. Mal começaram a rugir os primeiros acordes do violão de Yamandu Costa, mesclados à delicadeza sonora que saía do acordeon de Dominguinhos, que, de sobressalt…