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ABOIO

     Há alguns meses, os pecuaristas rondonienses participaram ativamente da campanha de vacinação do rebanho bovino, tendo um papel fundamental na prevenção e erradicação da febre aftosa, além de extirpar também outros flagelos, tais como o carbúnculo, a brucelose e a famigerada mosca-dos-chifres. Desta feita, lá estava eu acompanhando todo o processo que acontece duas vezes por ano.      Os mugidos misturavam-se aos sons uníssonos e indefiníveis dos aboios que ecoavam pelo curral:        - Ouou!, hea hea!, hen hen!...       O bodejo não possuía nenhum código linguístico que o definisse, mas o gado entendia muito bem a mensagem e obedecia às ordens, seguindo rumo ao brete, só aguardando a agulhada que viria furar seu couro grosso. De sobra, ainda restava receber o ferrete fumegante, alaranjado de tão quente, para evidenciar a marca de seu dono. Escorei os cotovelos num cavalete e fiquei admira...

DEZ, NOTA DEZ!

       Nos dias 02, 03, 04 e 05 de março de 2014, o bloco carnavalesco, Unidos do Miralobra, com o enredo “Reencontro”, deixou na poeira todas as escolas de samba da cidade maravilhosa, os cilibrins ofuscaram os holofotes e o glamour da Sapucaí, voltando-se para as águas do Miranda, proporcionando mais um evento antológico.        Gazal, o ilustre Mestre-sala e Nilva, a performática Porta-bandeira desfilaram de forma magistral ao som da marcha turca que era conduzida pelo violonista, Vitinho do Prata; no quesito “alegorias e adereços”, a nota dez já era mais que prevista. Burcas, varas, molinetes, morangas, lambaris, minhocas, tuviras, carretilhas, sapicuás, sete léguas, repelentes de toda espécie e chapéus ornamentavam o ambiente; um dos grandes destaques foi a passista Dona Lourdes e sua deslumbrante fantasia “Noites do Oriente”, esvoaçando seu turbante como um pavão eufórico; Já a Comissão de frente foi muito bem conduzida pelos fo...

EMBAGRECIDO

Lá pras bandas do Miranda Apoitado na toca da onça Ele passou por mim Entanguido que só Lembrei-me. Desfilou todo entojado Tocando Miles e Morgan O resto dos peixes Embalados pelas ondas do momento Não davam nem as horas. - Num canta não, nojento?   - desdenhava a piraputanga - Larga essa corneta, malassombro! – pilheirava o pacu Até cascudo tirava uma casquinha do pobre Assuntei bem a lição. Eita bicho medonho O tal do bagre Pode estar entocado em seu isolamento Solitário e escarnecido Mas sobrevive a todo instante Desacata o tempo Desmente a lua E segue seus lamentos Sem saber que cá do barco Eu embagrecia, todo vaidoso Enquanto as águas, como espelhos Refletiam minha vida Escorrendo rio abaixo.

ARTE À LA PARTE

      Enquanto os raios de sol ainda sonolentos entrecortavam a rodoviária de Cacoal, um delicioso cappuccino era saboreado ao som de Guinga e Francis Hime, que apresentavam na TV da lanchonete o novo trabalho autoral dos renomados artistas.        Era chapiscando açúcar na xícara quente, petiscando o Biscoito Fino e de olho no violão. Estalava os beiços quando o piano emergia. Os demais se atracavam aos pães de queijo e pastéis, nem se davam conta do espetáculo. Vez ou outra, olhares esguios arriscavam encarar a famigerada música que invadia o local. A ojeriza e o desprezo lustravam a cara dos clientes. Por alguns momentos imaginei que o aparelho estivesse com seus dias contados, não passaria ileso nessa fatídica manhã. Os ilustres compositores contavam histórias homéricas sobre grandes parcerias com Vinícius e Paulo César Pinheiro. Baladas e bossas complexas harmonizavam minha audição, mas o repúdio era maior que o prazer. O dono ameaça...

À SOMBRA DO ETERNO

       Enquanto folheava o encarte de “Lachrimae”, disco antológico do pianista André Mehmari, a faixa inicial, “Eternamente”, embalava a divagação que ultrapassou os limites da música, lançando-me num caudaloso remanso de rio. Apoitei o barco com a âncora da saudade e deixei o frescor das memórias invadirem o ambiente.         Podiam-se vislumbrar claramente os olhos contemplativos de Dona Bela, felizes por estarem cercados de filhos e netos; a revoada de risos pousava no pé de manga e se alvoroçava. A zoada era inevitável, nem dava as horas para o silêncio, espantava a tristeza pra bem longe dali; Bezerra alfinetava Carmela, Carmela cutucava Bezerra, primos se mungangavam, soltavam pilhérias como pipas pomposas, ornamentando o céu da cidade morena. Vez em quando os aromas de feijão, frango e farofa fustigavam a fome. Alguns natais foram vivenciados nesse contexto. Vicente era o Noel. Chegava da feira, com a sacola cheia de presentes...

ACANALHAMENTO ABENÇOADO

       Nos dias 20 e 21 de julho deste ano, os pequis de Goiás fundiram-se ao baião de dois nordestino, ornamentando o palco onde se realizou a 10ª Festa da Família Lacerda. Goiânia, Campo Grande, Cuiabá, Brasília, Campinas, Pedro Gomes, Sonora, Rondônia e até os Estados Unidos despejaram 149 adultos e 10 crianças no evento memorável.        A festa iniciou-se com a presença de 28 tripulantes da TAM, dentre eles a companhia inesquecível de minha mãe. A parentela se esparramou pelos assentos do avião. As pilhérias não obedeciam ao uso do cinto de segurança e vez ou outra escapavam pelos corredores. Ao desembarcarem no aeroporto Santa Genoveva, o motorista que iria levá-los para a sede do furdunço nem precisou das placas de identificação, pois de longe os cabelos brancos e a zoada já denunciavam os passageiros. A receptividade calorosa dos demais entes queridos já proporcionava uma chegada ao verdadeiro habitat. Foi só abandonar as m...

A VERDADEIRA BELEZA

     O que são os cabelos, senão uma exigência imposta pela sociedade para guarnecer o crânio com suas madeixas? E quando eles cedem às pressões do tempo, devo convencê-los de que não podem mais ser brancos? Será que é proibido ter rugas? Por que viver enfurnado numa academia, apenas para que meu corpo atenda aos padrões estéticos deste século? Se não sou adepto aos modismos estúpidos do momento, estou fora de moda? Devo pagar uma multa, se não obedeço às cores da estação? Quem disse que a beleza dá trela para a vaidade e a ilusão? Tudo isto é enfado e canseira, nada importa, apenas a certeza de que tudo voltará ao pó e que será consumido pelo solo gelado do esquecimento.      Há beleza nos olhos saudosos de minha mãe, os mesmos que me encararam pela primeira vez quando eu ainda cabia estendido nas palmas de suas mãos; há beleza no primeiro choro tenor do meu filho, dando o ar de sua graça e que ainda posso ouvi-lo mesmo em sua plena adolescên...