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O jardineiro

 Um passarinho travesso pousou sobre mim e desferiu sua gaiatice:

-Olha quem está por aqui, todo pelado, sem um fruto sequer!

Permaneci calado, sem dar trela à sua importunação.

-Vi que não gostou da minha abordagem. Desculpe, amigo, é que em tantas revoadas por aqui, em meio a tantas árvores mortas neste cemitério, ainda não havia pousado sobre você - continuou a ave.

-Pois é - respondi, desiludido.

-Hum, tá explicado (bicou-me a ponta da orelha) Na verdade, tem um fruto estranho aqui, bem na curva de seus braços. Os troncos desse lugar nunca me oferecem nada para comer, somente mau humor.  Não sei porque ainda insisto em voar por essas bandas. Também, nesse pântano hostil, ensobreado por esta nuvem escura, sem sol, sem água, sem vida, não posso esperar nada mesmo! Prazer, eu sou o Ferreiro da floresta, Araponga, ao seu dispor. Quer que eu cante para afastar sua azedice? 

Resignado, continuei a suportar suas provocações.

-Tá bom, chega de incomodá-lo, vou ali comer alguns figos silvestres e esteja pronto para me oferecer comida de verdade, hein, porque esse fruto aí que você tem é muito feio (que pé de pau esquisito, pensou consigo e saiu ruflando as penas).

O outono retornou ao seu ciclo natural, convidando o tal passarinho para mais uma aventura.

-Ora, ora, você por aqui? Continua exótico, mas agora ostentando algumas amoras convidativas pro meu bico. Até que enfim saiu daquele brejo (continuou, petiscando-me).

-Fui enxertado recentemente neste chão (respondi, assertivamente).

-Parabéns, tornou-se até falante, com folhagens novas e produzindo frutos suculentos. Mas como é mesmo o seu nome?

-Sou um pecadeiro! 

-Pecadeiro? Nunca ouvi falar! E pecadeiro produz mirtáceas? (Entre mais bicadas, continuou a prosa).

-Não, meus frutos se chamam morte, mas fui enxertado no solo da graça, com raízes profundas que vertem sangue e tocam na Rocha. Todos os dias sou regado pela água pura da vida e adubado pelo maná do céu. Agora tenho comida boa para lhe oferecer, mas continuo um pé de pecado. A diferença é que tenho alguém que me poda todos os dias.

-Hum! (Um silêncio cortante abafou o diálogo e de repente, uma brisa suave e perfumada invadiu o ambiente, até que a ave, sem hesitar e já cantarolando a vitória da resposta, perguntou):

-E quem tem feito esse serviço de poda?

-Olha ele vindo ali - respondi, sorridente.

A ave esqueceu sua essência de Araponga e como uma coruja, torceu o pescoço para vê-lo.

-É o meu jardineiro, Ele é Jesus!

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