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À SOMBRA DO ETERNO

      Enquanto folheava o encarte de “Lachrimae”, disco antológico do pianista André Mehmari, a faixa inicial, “Eternamente”, embalava a divagação que ultrapassou os limites da música, lançando-me num caudaloso remanso de rio. Apoitei o barco com a âncora da saudade e deixei o frescor das memórias invadirem o ambiente.
        Podiam-se vislumbrar claramente os olhos contemplativos de Dona Bela, felizes por estarem cercados de filhos e netos; a revoada de risos pousava no pé de manga e se alvoroçava. A zoada era inevitável, nem dava as horas para o silêncio, espantava a tristeza pra bem longe dali; Bezerra alfinetava Carmela, Carmela cutucava Bezerra, primos se mungangavam, soltavam pilhérias como pipas pomposas, ornamentando o céu da cidade morena. Vez em quando os aromas de feijão, frango e farofa fustigavam a fome. Alguns natais foram vivenciados nesse contexto. Vicente era o Noel. Chegava da feira, com a sacola cheia de presentes e esturrava:
           - Não sai do espinhaço de vocês mesmo!
        Agora as lembranças atracaram-se no Bairro Santo Amaro, lá onde o primeiro instrumento musical deitou-se no meu colo, uma sanfona ganhada com bilhete enganchado na chinela de meu pai. Outros foram entregues a minha mãe, solicitando permissão para anarquizar com o restante da vizinhança. Imagens do primeiro disco comprado na Roberto Som, o clássico “Somewhere in time”, do Iron Maiden, em meados de 1987 (o primogênito em meio a outros inúmeros bolachões de rock e jazz adquiridos posteriormente), também ocupavam parte da imaginação que voava conforme a canção de Mehmari transcorria.
        Esses rumores ainda se inflamam, rugem estrondosamente. Tais imagens continuam com os mesmos matizes, como se tivessem sido pintadas neste exato momento. O frescor da tinta é evidente, vez que sua textura não dá trela ao tempo, engabela o efêmero e traz à tona o momento sempre verdadeiro e único do presente.
        Debrucei-me na janela do carro e vi a eternidade acenando pra mim. Compreendi a canção. 

Comentários

  1. Parabéns pelo texto Beto Lacerda, descrição perfeita de momentos inesquecíveis vivenciados em família.....que serão guardados eternamente em nossos corações....

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