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ACANALHAMENTO ABENÇOADO

       Nos dias 20 e 21 de julho deste ano, os pequis de Goiás fundiram-se ao baião de dois nordestino, ornamentando o palco onde se realizou a 10ª Festa da Família Lacerda. Goiânia, Campo Grande, Cuiabá, Brasília, Campinas, Pedro Gomes, Sonora, Rondônia e até os Estados Unidos despejaram 149 adultos e 10 crianças no evento memorável.        A festa iniciou-se com a presença de 28 tripulantes da TAM, dentre eles a companhia inesquecível de minha mãe. A parentela se esparramou pelos assentos do avião. As pilhérias não obedeciam ao uso do cinto de segurança e vez ou outra escapavam pelos corredores. Ao desembarcarem no aeroporto Santa Genoveva, o motorista que iria levá-los para a sede do furdunço nem precisou das placas de identificação, pois de longe os cabelos brancos e a zoada já denunciavam os passageiros. A receptividade calorosa dos demais entes queridos já proporcionava uma chegada ao verdadeiro habitat. Foi só abandonar as m...

A VERDADEIRA BELEZA

     O que são os cabelos, senão uma exigência imposta pela sociedade para guarnecer o crânio com suas madeixas? E quando eles cedem às pressões do tempo, devo convencê-los de que não podem mais ser brancos? Será que é proibido ter rugas? Por que viver enfurnado numa academia, apenas para que meu corpo atenda aos padrões estéticos deste século? Se não sou adepto aos modismos estúpidos do momento, estou fora de moda? Devo pagar uma multa, se não obedeço às cores da estação? Quem disse que a beleza dá trela para a vaidade e a ilusão? Tudo isto é enfado e canseira, nada importa, apenas a certeza de que tudo voltará ao pó e que será consumido pelo solo gelado do esquecimento.      Há beleza nos olhos saudosos de minha mãe, os mesmos que me encararam pela primeira vez quando eu ainda cabia estendido nas palmas de suas mãos; há beleza no primeiro choro tenor do meu filho, dando o ar de sua graça e que ainda posso ouvi-lo mesmo em sua plena adolescên...

DRIBLANDO AS ADVERSIDADES

       A força do nordestino é um dom peculiar ofertado por Deus para que os obstáculos (que não são poucos) sejam ultrapassados. O bom humor, a criatividade e a ousadia são algumas da armas fundamentais para se alcançar a vitória.      Como explicar essa vitalidade, capaz de suportar os inúmeros flagelos que assolam a região do cangaço? Seca, miséria extrema, educação escassa, falta de oportunidades, preconceitos, empregos mal remunerados, desequilíbrio econômico etc. São apenas alguns exemplos de adversidades que se alastram entre essa gente, no entanto, é dessa região tão precária que surge boa parte da cultura nacional consistente. Luiz Gonzaga, por exemplo, exímio compositor pernambucano, tornou-se um pilar da história da música brasileira, revolucionando o baião, um ritmo nordestino que assumiu proporções jamais imaginadas; Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, poeta e compositor cearense, analfabeto, sem ja...

14611 PRESENTES

      Ao telefone, minha mãe desculpava-se pelo fato de não ter me enviado nenhum presente, o que não concordo e passo a explicar: Segundo ela, às 16:30 horas, em março de 1973, em plena segunda-feira, enquanto os trabalhadores quase encerravam sua primeira jornada exaustiva da semana, meus olhos sonolentos abriram-se pela primeira vez, já chorando grave e sorrindo para o mundo. Isso explica o motivo que sempre me levou a não gostar de acordar cedo e, por isso, repudiar o ridículo ditado popular: “Deus ajuda, quem cedo madruga”. Nasci bem depois da hora do almoço, no entanto tenho inúmeras bênçãos para contar.    Uma delas é o fato de ser um apreciador do mundo das artes, ter a sensibilidade de contemplar uma boa leitura, ser levado pelas ondas dissonantes do jazz, sentir o prazer de se debruçar sobre os bandolins chorões que reverberam no meu coração tão sedento de brasilidade e ainda sentir o frescor da bossa, refinando minhas audições. E o que diz...

QUEIXUME

Não sei pra que toda pluma Tanta banca, tanta pompa se escanchada na garupa rindo da mea culpa é a palavra tosca quem se inflama. Se quero que lodo vire rosa Pavão seja peba E carvão, pérola Quem se importa? Se as pedras que trago no embornal É o que mais me encanta. A rima que se lasque O Aurélio que se dane Há muito já rebolei na ribanceira o Bilac O Dias, o Casimiro, o Alencar Eu quero é um Ménage à trois Com o torto e o traste. Prefiro a companhia das palavras tronchas Das que saem sem black tie E fazem do chão sua cama Se lambuzam de poeira e lama E não sabem se noite é dia Ou se afago é açoite Sei apenas que poste e tolete são poesia. Não dou trela se ela tem diploma Até torço a cara quando me acena E diz estar no altar feito dama Mas se cambaleando de tão bêbada Cai num pé de guanxuma e diz que é puta Apenas ergo sua saia e ela já está pronta.

DEDO DE DEUS

     É necessário estar preparado para encarar a guerra sonora que se alastra por todo território nacional, por isso, para conter os ataques fulminantes e avassaladores que são arremessados a esmo, sempre carrego armamentos suficientes (cds, pendrives e MP’s), blindando minha audição com o jazz, a bossa e o choro, mas nessa última tarde fui saqueado pelo esquecimento e por uma chuva torrencial que caía sem piedade, enquanto aguardava minha esposa voltar da loja de sapatos.       Estava atônito, fragilizado, despido no truculento campo de batalha, apenas com a companhia de um rádio famigerado. Tenho um medo terrível desse meio de comunicação. Das experiências vivenciadas, apenas duas exceções auditivas me encorajaram a ouvi-lo: nas madrugadas de Campo Grande, quando a UCDB mantinha os pés fincados no solo da MPB e ainda não havia se prostituído com outros gêneros bizarros e nos próprios programas que produzi e apresentei, logo que cheguei a ...

CHAMARISCO

     É notório que o Brasil não está economicamente entre as grandes potências mundiais, mas atualmente tem vivido o paradoxo de estar entre os países subdesenvolvidos que mais tem atraído o movimento imigratório e tudo isso demonstra que a crise mundial já escorou seus braços na porta do desenvolvimento e que para outras nações, ainda mais frágeis, esse recanto tupiniquim é um verdadeiro paraíso.   Além dos irmãos sul-americanos: paraguaios, uruguaios, bolivianos e argentinos, os haitianos também estão se aventurando nesta jornada, em busca de condições melhores para adquirir a sobrevivência, vez que a escassez tem se alastrado em seus territórios. Outro atrativo é a convivência pacífica entre os brasileiros, possuidores de hospitalidade, generosidade e espírito de mansidão, capaz de aceitar as inúmeras afrontas do governo, com suas corrupções desenfreadas e permanecer com o sorriso amarelo estampado no rosto calejado pelo sofrimento e ainda festejar o c...