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DRIBLANDO AS ADVERSIDADES


       A força do nordestino é um dom peculiar ofertado por Deus para que os obstáculos (que não são poucos) sejam ultrapassados. O bom humor, a criatividade e a ousadia são algumas da armas fundamentais para se alcançar a vitória.
     Como explicar essa vitalidade, capaz de suportar os inúmeros flagelos que assolam a região do cangaço? Seca, miséria extrema, educação escassa, falta de oportunidades, preconceitos, empregos mal remunerados, desequilíbrio econômico etc. São apenas alguns exemplos de adversidades que se alastram entre essa gente, no entanto, é dessa região tão precária que surge boa parte da cultura nacional consistente. Luiz Gonzaga, por exemplo, exímio compositor pernambucano, tornou-se um pilar da história da música brasileira, revolucionando o baião, um ritmo nordestino que assumiu proporções jamais imaginadas; Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, poeta e compositor cearense, analfabeto, sem jamais ter aperfeiçoado suas técnicas literárias através de artifícios academicistas, saiu do anonimato para se tornar um exemplo de personalidade importante para a memória da cultura brasileira; autores da rica literatura brasileira, como é o caso do alagoano Graciliano Ramos, através da obra “Vidas Secas”, da cearense Rachel de Queiroz, com “O quinze”, do paraibano José Américo de Almeida, no clássico “A bagaceira” e Euclides da Cunha, que mesmo sendo carioca fez questão de descrever a força do sertanejo baiano, na obra “Os sertões”, demonstraram a descomunal capacidade desse povo em conseguir ultrapassar seus próprios limites de resistência.
     O humor também é um artifício que o nordestino sabe explorar como ninguém, usado como uma válvula de escape para poder ofuscar os problemas que precisa enfrentar no cotidiano. É o caso dos humoristas Renato Aragão, Chico Anysio, Tom Cavalcante, Tiririca, Falcão, além de vários repentistas e outros que fazem do riso uma forma de disfarçar a dura realidade.
     O sofrimento impulsiona as pessoas a saírem do estágio de letargia para alçar voos outrora inatingíveis, provando que a capacidade humana vai muito além daquilo que se imagina. Segundo menciona o nordestino Djavan, em uma de suas composições: “Do nada também se nasce uma flor, com todo o seu poder de coloração e magia”.

Comentários

  1. Muito bom, como tudo que vc escreve!!
    Bjus!!

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  2. Poeta que se preza sabe driblar as adversidades e fazer trovas do infortúnio. Parabéns ao Poeta BETO pelos seus profícuos quarentões. A minha conta de sessentão está um pouquinho mais alta, 21917 são os presentes da mamãe. Homenagem tão justa e acertada à MÃE só poderia vir da pena de um Poeta verdadeiro.

    É também admirável o preito de veneração e respeito do Poeta Beto em “Dibrando as Adversidades”, dedicado aos imortais Luiz Gonzaga e Patativa do Assaré. Tive o privilégio de entreter-me com ambos por alguns momentos inesquecíveis e sentir nas minhas próprias entranhas, a grandeza da alma de ambos.

    Muito se ouve sobre os bons frutos que são abundantes, porém pouco sobre as árvores. É a inexorável incapacidade de homens públicos que deveriam zelar e promover esses valores culturais tão ricos da Nação Brasileira. Ao invés disto eles preferem patrocinar “Seca, miséria extrema, educação escassa, falta de oportunidades, preconceitos, empregos mal remunerados, desequilíbrio econômico etc.”, o que se pode perceber com olhos e ouvidos atentos ao se percorrer o sertão nordestino e confabular com aquela gente humilde, pacata e de coração grandioso.

    Diante desse quadro tétrico de desprezo pelos valores culturais em nossa pátria, o consolo que nos resta é a certeza de que a vida aqui é apenas uma passagem e a Lei de Causa e Efeito tarda mas não falha. Certamente os “Gonzagas” e os “Patativas” continuarão a espalhar o seu canto alegre e cativante aqui e lá, sem jamais serem esquecidos. Quanto aos outros, a certeza do esquecimento é o único presente que podem esperar. Do primo sessentão Tonheiro.

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