Pular para o conteúdo principal

GERANDO EMPREGO - segunda parte (Conto do Livro "As presepadas de Dalai", 2008)

     Bronson foi outra vítima da generosidade de Dalai. Vindo de Pedro Gomes, cidade pacata do interior de Mato Grosso do Sul, o primo estava desamparado, não conhecia muitas pessoas na cidade grande e havia encerrado sua carreira de jogador de futebol. Não demorou muito para que Dalai também desse “aquela forcinha”. A estratégia era a mesma: sair nas baladas e apresentar-lhes a moçada, assim ficaria mais fácil encaixá-lo nesse novo universo.
     Mesmo no agito, rodeado de amigos e, principalmente, “amigas”, Dalai não descuidava, sempre atento às reações de Bronson, observando suas maneiras, trejeitos, manias, querendo buscar algo que combinasse com seu estilo. Seu coração amolecia quando se punha a pensar que o tempo estava passando e era necessário arranjar-lhe alguma ocupação.
     E aí, Bronson, já arranjou algum esquema? – incitava Dalai.
     - Tranquilo, está tudo sob controle.
     Dalai abria aquele sorriso maroto e falava em pensamento: “garoto esperto, puxou a mim, só dei um empurrão e ele já está com aquela pegada violenta. Não nega a raça!”.
     Dalai apresentou-lhe uma linda morena, fez uma média com os dois, soltou algumas pilhérias, quebrando o gelo da timidez, deu uma piscadela para o Bronson e se ausentou por algumas horas, deixando-os à vontade. Não demorou muito para que o celular do mestre começasse a tocar sem parar, de tanta insistência, Dalai resolveu voltar ao local e foi surpreendido por uma cena hilária: A moça já estava atracada com outro rapaz e sob a mesa de Bronson, três tubaínas, uma bomba, uma cuia de chimarrão, uma paçoca, uma foto do Bimpo, seu cachorro de estimação e um caderno de 12 matérias.
     - Que marmota é essa, Bronson? – indagou Dalai, já engasgando de tanto rir.
     - Está tudo sob controle, já anotei o telefone da morena. Ela gostou muito de mim.
     Dalai folheou o caderno e percebeu o potencial do primo em anotações, todas muito organizadas, imediatamente um facho de luz invadiu seus neurônios:
     - Você já está empregado, Bronson, as empresas telefônicas precisam de uma pessoa com esse talento. Nunca vi ninguém anotar tantos telefones em tão pouco tempo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOBREVIVENTES

Naquela tarde fatídica, esgueirando-me da impassividade do Direito e do campo minado que ameaça explodir meus tímpanos já em frangalhos, por uma questão de sobrevivência e necessidade fisiológico-musical, entrincheirei-me na casa do Thael.     Cheguei ofegante, disritmado, buscando oxigênio nos acordes dissonantes de seu violão. Ainda poderia aventurar-me lá pelas bandas do Luciano ou até mesmo uma pausa para ver esmerar as baquetas nervosas do Robismar, os únicos da cidade capazes de devolver-me o ar. Sensível e compatriado, sapecou logo à queima roupa três canções da lavra Bosquiana: “Corsário”, “Jade” e  “Quando o amor acontece”. O anfitrião soltou um sorriso ladino e, percebendo que ainda respirava com dificuldade, destilou doses cavalares de Djavan, Chico, Tom, Ivan e Edu. Aos poucos, mergulhamos no mar infinito da Música Popular Brasileira e mais pérolas foram surgindo como antibióticos potentes que expulsavam qualquer vestígio infeccioso.     Papos culturais foram estreitando…

ABDUZIDO

Para pedras parecerem plumas, o processo trabalhoso de mudança se desenrolava com o porta-malas erguido, destilando sons homéricos de cancioneiros da Música Popular Brasileira e inserções jazzísticas que fluíam potentes do meu pioneer.           O ambiente transformou-se em estúdio particular e, por vezes, pista de dança que deixavam a tarde muito mais harmoniosa. Era um olho na lida e outro nos transeuntes que passavam rente à garagem. Caras contorcidas, testas franzidas, narizes tentando alçar voos, lábios cerrados, sussurros incompreensíveis, sibilos denunciando a vontade de abater-me como presa, múltiplos sentimentos avolumavam-se na face rubra dos passantes. Isso não era fruto de uma atitude vingativa, a fim de dar o troco aos infortúnios causados por essa gente que me cerca continuamente com seus massacres sonoros, apenas um convite ao prazer e à degustação.             De repente, o pintor surgiu para continuar seu trabalho. Parou por alguns minutos, coçou parte da ca…

VITALIDADE DA ALMA NORDESTINA

“...mas quando é dia de festa todo povo do sertão dança para aparar as arestas do coração”, assim menciona Djavan, nos versos de “Vida nordestina”, uma das faixas do seu novo disco autoral: Vidas pra contar. O alagoano tem razão, pude flagrantear o acontecido em Campo Grande, durante esses quase trinta dias que estive por lá. Aos 73 anos de idade, após ter enfrentado duas cirurgias contra uma terrível neoplasia e passar por um tratamento severo, com mais de 30 sessões de quimioterapia e 39 radioterapias, já repousando em sua casa, na peleja com um aparelho desses mais modernos, minha mãe desabafou: - Meu filho, pelo amor de Deus, liga esse bicho, não sei viver sem música! Compreendi-me. Descobri de onde vem minha paixão pela música e literatura (embora já o soubesse). O gene arretado desta cearense me arrebatou ainda em seu ventre. Mal começaram a rugir os primeiros acordes do violão de Yamandu Costa, mesclados à delicadeza sonora que saía do acordeon de Dominguinhos, que, de sobressalt…