segunda-feira, 27 de junho de 2011

ÁGUAS PERIGOSAS - Conto do livro "As presepadas de Dalai", 2008

     Juda foi o maior beneficiado pelas gentilezas empregatícias de Dalai, foi com ele que aconteceram as principais presepadas e aventuras, uma delas foi a visita às cataratas. Na verdade, as águas não passavam do joelho.
     Para que o passeio não fosse interferido por nenhum imprevisto, Dalai realizou uma espécie de palestra para a equipe formada por Juda, Yarabela e Beth Mundrongo, detalhando o local, descrevendo os perigos mais iminentes, precavendo-se de qualquer espécie de infortúnio. A organização e a tática sempre foram aliadas ao comportamento de Dalai, seu espírito aventureiro não dispensava certas precauções, não gostava de correr riscos, mantinha-se numa linha mais metódica, calculista, a fim de que nada pudesse sair do seu comando estratégico. Sendo ele o único que conhecia bem o local onde seria realizado o acampamento, as coordenadas preliminares foram apresentadas:
     - Olha, gente, lá a queda d’água é violenta, o barulho é ensurdecedor. Alguns até dizem que as cataratas para onde vamos são águas assassinas, portanto todo cuidado é pouco. Outra coisa, vocês precisam levar tampões reforçados para vedar o ouvido, por isso precisamos acampar o mais distante possível, para que não tenhamos os tímpanos estourados. Sugiro, inclusive, que ao aproximarmos dessas águas revoltas, usemos um capacete bem resistente ou até uma roupa de astronauta, se for o caso. Repito, todo cuidado é pouco.
     Juda estava um pouco preocupado, não conhecia o local e temia a violência das cataratas. Outra coisa o pertubava, era o fato de perceber que a professorinha já se engraçava com Dalai e a ele restaria apenas a Mundrongo. Naquela altura, era difícil saber o que lhe causa mais pavor, se as águas violentas ou aquelas pernas recheadas de catombos, perebas e varizes.
     Restando dois quilômetros para chegarem ao local, a turma se apoderou dos equipamentos e tomou os cuidados necessários. Mesmo com os vidros do carro fechados, o esturro das águas já começava a ameaçar, imediatamente pegaram vários chumaços de algodão e vedaram o ouvido. Quando perceberam que os vidros do carro começavam a trepidar, era o sinal de que não poderiam prosseguir e ali seria o limite para armarem as barracas e acamparem.
     - Da última vez que tive aqui, o barulho não era tanto. Lembro-me que consegui acampar mais próximo das cataratas. Não podemos brincar com a força da natureza, é melhor ficarmos por aqui – afirmava Dalai.
     Enquanto isso, Yarabela, Beth Mundrongo e Juda preparavam-se para ver a maior queda d’água da região, que perdia apenas para as cataratas do Niágara.
     - Epa, esperem aí, onde vocês acham que vão? – retrucou Dalai.
     - Queremos ver de perto esse fenômeno da natureza – disse Mundrongo.
     - Nada disso, vamos ver daqui.
     Imediatamente Dalai pegou os binóculos e capacetes que estavam no carro, distribuiu entre o grupo e orientou que ficassem vislumbrando dali mesmo.
     - Nossa, é enorme! – exclamava Yarabela.
     - Meu Deus, nunca vi nada igual! – afirmava Mundrongo.
     - Caramba, Dalai, a queda d’água é muito forte! – comentava Juda.
     - Eu não disse, não tem como chegar lá perto, é uma visão linda, mas aterrorizante. Temos que ficar por aqui mesmo.
     Ao anoitecer, alongados naquele paraíso, saboreando uma picanha e ao som de "Antoin Binidito" (na verdade, Tony Bennett), que às vezes tornava-se inaudível por causa da violência das águas, embalados pela cerveja, a turma comemorava o acontecimento. Dalai havia levado apenas uma barraca, que por sinal já estava sendo utilizada por ele e Yarabela.
     - É, já está na hora de dormir – mencionou Juda.
     - Que nada, vamos conversar mais um pouco – disse Mundrongo.
     Juda tentava se esquivar, procurando um jeito de fugir daquela visão que o atormentava. Nem o caminhão da Skol poderia fazê-lo tornar um herói suficiente para encarar aquela bagaceira, portanto a saída emergencial foi entrar na barraca e tentar dormir ao lado do casal.  A noite parecia estar mais longa, as águas assustadoras batiam com força nas pedras, espantando o silêncio e o sono de Juda, sem contar os gemidos da professorinha que começavam a ficar mais intensos naquele recinto apertado.
     - Não estou mais aguentando esse furdunço, os ovos já estão latejando! – disse Juda, abrindo o zíper da barraca.
     Dalai tentou abafar o riso, mas não conseguiu e soltou uma gaitada forte. Juda investiu pesado no resto das cervejas e ficou por ali, soltando baforadas, ouvindo as potocas da Mundrongo e encarando a lua que brilhava intensamente naquela madrugada inesquecível.

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