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RAÍZES DE SANGUE

     Ao som nostálgico de “song pepper”, do guitarrista Mike Stern, enquanto vislumbrava as fotos que registraram boa parte da família concentrada na festa de 60 anos de casamento da tia Ana e do tio Raimundo, no interior do Matogrosso do Sul, a saudade resolveu prender-me em suas asas e transportar para o seio das abençoadas raízes de sangue.      Não foi possível ver o meu rosto entre os demais, uma vez que não pude estar presente no evento. Mas quem disse que algum dia estive distante? Estamos todos conectados por um elo inexplicável. Meus pés ainda tocam a poeira do chão da pacata cidade de Pedro Gomes e a chuva de Campo Grande ainda encharca minha camisa coarada agora pelo sol de Rondônia; o corpo ainda sente os afagos da minha mãe, do filho, dos avós, tios e primos; minha voz se mistura aos sotaques nordestinos que pairam em todas as festividades; os cabelos brancos se fundem com as profundas entradas que anunciam a chegada da precoce cal...

BENDITAS CONEXÕES

     Os olhos estavam fitos na estrada, mas os pensamentos roçavam as nuvens. Enquanto os pneus agradeciam o novo asfalto da BR 429 e a viagem era embalada pelo som abrasileirado do saxofonista francês, Idriss Boudrioua, minha reflexão tomava como ponto de partida o título do trabalho musical deste instrumentista.      Há vinte cinco anos realizando essas parcerias com artistas brasileiros, Idriss lançou em 2004 o disco “Paris-Rio”. Na capa, o virtuose apenas atravessa uma avenida imaginária que divide os dois países. De um lado, morros, botequins, metrô e Cristo Redentor refletem a cidade maravilhosa; do outro, bares, bistrôs e a Torre Eiffel evidenciam a cultura francesa. Tudo isso deflagrou a importância das conexões, assim tem sido boa parte da minha trajetória profissional como professor.      Nesses quase vinte anos de ofício, muitas foram as conectividades. Algumas realizadas no Estado do Matogrosso do Sul. Criei me...

NA CONTRAMÃO

Bom mesmo é ser torto como o jazz Esguio como a bossa e o samba Andar na corda bamba Trocar as mãos pelos pés Pegar atalhos e fugir da direção Abandonar a canga Dar pano pra manga Provocar confusão Assim funciona a liberdade Dá um nó em quem não entende Mas para quem se rende Sabe que a arte é verdade Não se compra em mercado Vive nas ribanceiras Nas miragens, trincheiras Longe do trânsito engarrafado Meio trôpegos, cambaleantes e incertos Os demais transeuntes são arrastados E a correnteza que os leva amarrados Descambam em vários desertos Com os olhos embotados de terra Entre pedras, poeira e fumaça Não percebem que a vida passa E que já perderam a guerra Assim seguem felizes e escravizados Como se comessem manjares E lá de cima de seus altares Fossem ovacionados Enquanto isso a mídia agradece Segue empurrando a insossa comida fria Que desce macio na barriga vazia Do povo que sorri e perece.

SOPRO DE DEUS

Aqui em Rondônia o sol reina soberano Trabalhador incansável Não tem feriado Não tira férias E à noite ainda faz hora extra Estendendo seus raios invisíveis Pela manhã Sem dar tréguas Lá está ele com sua cara vermelha Enfurecido Pronto para tostar minha pele Desobedece as leis das estações Compra briga com a lua Rompe amizade com as nuvens Engabela o vento Aterroriza a terra Afugenta as chuvas Não barganha com ninguém Em agosto seu ego se inflama Torna-se pedante, intragável Sua cólera visceral empomba Então veste sua capa escarlata E desfila galante Exibindo sua arrogância mórbida Às vezes ele se dá mal Quando isso acontece Murcha as orelhas Afina a voz Esconde seu sorriso amarelo E se desfaz ao simples Sopro frio de Deus para aquecer meu coração campograndense.

CONVIVÊNCIA PACÍFICA

     O convívio com a corrupção vem de longa data e não se limita apenas na questão política, engloba todos os setores.      Quando esse termo é mencionado logo vem à imagem ilicitudes de grande porte, tais como: lavagem de dinheiro, desvio de verbas, vantagens indevidas, apoderação de bens públicos etc, mas a corrupção tem se alargado em grande escala e se avolumado de tal forma que já faz parte do cotidiano. Sua manifestação pode estar presente em momentos corriqueiros: boicotar uma simples fila de banco, adquirir produtos piratas, fazer ligações gratuitas de um orelhão com problemas, falsificar a assinatura para que um determinado pai não saiba das notas baixas do filho, enfim, esse festim com a ilegalidade torna-se algo comum.      Os que não compartilham com essas atitudes fraudulentas estão fadadas ao fracasso, ainda não aprenderam a viver de forma ousada, sofrerão as consequencias de ficarem ultrapassados. Para...

RECEITA TUPINIQUIM

1 pitada de Toninho Horta 1 quilo de Chico Buarque 2 quilos de Tom Jobim 1 masso de Pixinguinha 2 colheres de sopa bem cheias de Villa-Lobos 1 colher de Victor Assis Brasil 1 xícara de Nico Assumpção 200 gramas de Edu Lobo 500 gramas de Ivan Lins 2 porções de Rosa Passos Luiz Gonzaga a gosto. Para o molho Jackson do Pandeiro Ernesto Nazareth Sivuca Rildo Hora João Gilberto Raphael Rabello Vinícius de Moraes Francis Hime Djavan João Bosco Joyce e Leny Andrade. Refogue tudo na panela de barro e sirva bem quente acompanhado de Noel Rosa Cartola Ary Barroso e Hermeto Pascoal. OBS: Essa comida possui muitas calorias Além de vitaminas M, P e B Não contém contra indicações E seu uso abusivo pode causar o vício do paladar apurado aprimorando as papilas gustativas. Precauções: Evite misturar com outros tipos de alimentos, tais como: Sertaneja, pagode, funk carioca, axé, calypso e seus derivados. Tais gêneros estra...

LEVITAÇÃO

     Os olhos esfuziantes, ouvidos atentos aos acordes dissonantes, pernas agitadas pelo ritmo torto e envolvente, dedos como baquetas desferindo golpes certeiros em tudo que se vê pela frente e as nuvens roçando os cabelos. Assim sou tomado pela música e levado para muito longe daqui. Para onde vou, não sei, mas sinto que os pés se desprendem do chão.      Nesses momentos de delírio musical, muitas imagens também se apoderam desse estado de espírito trazendo recordações ainda frescas na memória: as inúmeras visitas ao Hamurabi (o maior sebo de Campo Grande/MS), garimpando raridades; os primeiros contatos, ainda no tempo das espinhas, com Metheny, Bireli, Jaco, Wes, Ritenour, Toots, Weckl, Miles, Parker, Coltrane e tantos outros consagrados artistas jazzísticos que guarneciam as prateleiras do primo Edson di Carvalho; os shows de Gil, Djavan, João Bosco e Gal, acompanhados pelos talentosos instrumentistas, Armando Marçal, Kiko Freitas, Marcelo ...