Pular para o conteúdo principal

BENDITAS CONEXÕES

     Os olhos estavam fitos na estrada, mas os pensamentos roçavam as nuvens. Enquanto os pneus agradeciam o novo asfalto da BR 429 e a viagem era embalada pelo som abrasileirado do saxofonista francês, Idriss Boudrioua, minha reflexão tomava como ponto de partida o título do trabalho musical deste instrumentista.
     Há vinte cinco anos realizando essas parcerias com artistas brasileiros, Idriss lançou em 2004 o disco “Paris-Rio”. Na capa, o virtuose apenas atravessa uma avenida imaginária que divide os dois países. De um lado, morros, botequins, metrô e Cristo Redentor refletem a cidade maravilhosa; do outro, bares, bistrôs e a Torre Eiffel evidenciam a cultura francesa. Tudo isso deflagrou a importância das conexões, assim tem sido boa parte da minha trajetória profissional como professor.
     Nesses quase vinte anos de ofício, muitas foram as conectividades. Algumas realizadas no Estado do Matogrosso do Sul. Criei mentalmente a capa da minha história de ensino. Campo Grande fundindo-se com Sidrolândia, Camapuã, Bela Vista, Jardim e Bonito. Agora esta avenida abstrata encontra-se na cidade de Presidente Médici, interligada à outra interiorana rondoniense, a pacata Alvorada do Oeste. Ali, outras experiências foram acrescentadas no convívio com alguns alunos da Escola Santa Ana, entre os meses de julho e outubro de 2011. Algumas cenas ficaram registradas: Abdiel e suas brincadeiras com as redações que produzia, sustentando seus convencimentos exagerados; Luciana e sua fome, não só de aprendizado, mas pelas guloseimas da cantina; Lilian pelo jeito discreto, mineiro, conseguindo a melhor pontuação no primeiro simulado; Edinon e sua calma em aprender, ensinando-me com o seu silêncio; João Carlos, sempre munido de simpatia e espontaneidade; Helen e Caroline com suas extravagantes atitudes, sempre exalando toda energia peculiar da juventude; Abraão e seu sotaque nordestino, trazendo ares sergipanos para a sala de aula; Gisele, Élida e Luanny, disputando o domínio dos conteúdos, que apesar da tenra idade, já demonstram competência e seriedade. Marilete, Favíola, Nicolas, Patrícia, Luana, Carlos, Liliana, Vicente, Adriana, Jackson, Katiully, Jéssica e as duas Simones, enfim, todos contribuíram para que ampliasse o meu universo. Isso sem contar a extraordinária receptividade proporcionada pelo Nivaldo, Diretor da escola onde tudo isso aconteceu. É tanto, que até fiz parte da festa de comemoração dedicada aos funcionários, regada à muita música regional e ao carneiro de tempero inesquecível.
     Nessas andanças, em veredas tão diversificadas, só resta agradecer a Deus por ter me agraciado com esta sublime profissão, servindo de ponte para que novas experiências fossem inseridas na minha vida, alargando as fronteiras do conhecimento.

Comentários

  1. Parabéns Beto!
    Seu trabalho realmente é incrível, e graças a você também eu consegui chegar onde queria. Poder ter sido seu aluno por um tempo foi maravilhoso, além de um excelente profissional, também é uma pessoa de ouro. Sou muito grato por todo o conhecimento que eu pude absorver de você.

    Abraços, sucessos e que Deus continue te abençoando!

    Abdiel

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SOBREVIVENTES

Naquela tarde fatídica, esgueirando-me da impassividade do Direito e do campo minado que ameaça explodir meus tímpanos já em frangalhos, por uma questão de sobrevivência e necessidade fisiológico-musical, entrincheirei-me na casa do Thael.     Cheguei ofegante, disritmado, buscando oxigênio nos acordes dissonantes de seu violão. Ainda poderia aventurar-me lá pelas bandas do Luciano ou até mesmo uma pausa para ver esmerar as baquetas nervosas do Robismar, os únicos da cidade capazes de devolver-me o ar. Sensível e compatriado, sapecou logo à queima roupa três canções da lavra Bosquiana: “Corsário”, “Jade” e  “Quando o amor acontece”. O anfitrião soltou um sorriso ladino e, percebendo que ainda respirava com dificuldade, destilou doses cavalares de Djavan, Chico, Tom, Ivan e Edu. Aos poucos, mergulhamos no mar infinito da Música Popular Brasileira e mais pérolas foram surgindo como antibióticos potentes que expulsavam qualquer vestígio infeccioso.     Papos culturais foram estreitando…

ABDUZIDO

Para pedras parecerem plumas, o processo trabalhoso de mudança se desenrolava com o porta-malas erguido, destilando sons homéricos de cancioneiros da Música Popular Brasileira e inserções jazzísticas que fluíam potentes do meu pioneer.           O ambiente transformou-se em estúdio particular e, por vezes, pista de dança que deixavam a tarde muito mais harmoniosa. Era um olho na lida e outro nos transeuntes que passavam rente à garagem. Caras contorcidas, testas franzidas, narizes tentando alçar voos, lábios cerrados, sussurros incompreensíveis, sibilos denunciando a vontade de abater-me como presa, múltiplos sentimentos avolumavam-se na face rubra dos passantes. Isso não era fruto de uma atitude vingativa, a fim de dar o troco aos infortúnios causados por essa gente que me cerca continuamente com seus massacres sonoros, apenas um convite ao prazer e à degustação.             De repente, o pintor surgiu para continuar seu trabalho. Parou por alguns minutos, coçou parte da ca…

VITALIDADE DA ALMA NORDESTINA

“...mas quando é dia de festa todo povo do sertão dança para aparar as arestas do coração”, assim menciona Djavan, nos versos de “Vida nordestina”, uma das faixas do seu novo disco autoral: Vidas pra contar. O alagoano tem razão, pude flagrantear o acontecido em Campo Grande, durante esses quase trinta dias que estive por lá. Aos 73 anos de idade, após ter enfrentado duas cirurgias contra uma terrível neoplasia e passar por um tratamento severo, com mais de 30 sessões de quimioterapia e 39 radioterapias, já repousando em sua casa, na peleja com um aparelho desses mais modernos, minha mãe desabafou: - Meu filho, pelo amor de Deus, liga esse bicho, não sei viver sem música! Compreendi-me. Descobri de onde vem minha paixão pela música e literatura (embora já o soubesse). O gene arretado desta cearense me arrebatou ainda em seu ventre. Mal começaram a rugir os primeiros acordes do violão de Yamandu Costa, mesclados à delicadeza sonora que saía do acordeon de Dominguinhos, que, de sobressalt…