quarta-feira, 20 de julho de 2011

QUANTO VALE?

     No dia 14 de julho de 2011, às 23:00 h, no aeroporto de Ji-Paraná/RO, uma grande emoção tomou conta do lugar e se avolumou de tal forma que foi difícil conter o choro. Era a chegada de alguns membros da família Lacerda. De longe se podia ver os cabelos brancos dos integrantes que vinham de Campo Grande/MS para comemorar minha colação de grau, cerimônia realizada na Ulbra, no dia posterior, reunindo quase 60 bacharéis em Direito. Dentre os parentes, os tios, Misa (Misael Hélio), Sabirila Hair, vulgo Frango Vit (Elino), Zé Paganela (José Lacerda) e Maria do Rancho (Maria), além dos primos, Téiu, (Luís Fábio), Amiltu Ceza (Hilton Cézar) e Borba (Floriano Neto).
     Parte desta festa já havia começado com a comemoração do meu 1º aniversário de casamento, além da chegada de Madrinlurde, minha mãe querida. Os demais foram se acomodando aos poucos. Frango Vit, Misa, Téiu e Amiltu ficaram hospedados no hotel do Salim, uma espécie de aventureiro que contava histórias vistas apenas nos filmes do Spielberg. Aos poucos, Frango Vit foi instigando o hoteleiro a revelar seus feitos por todo o Brasil, inclusive três fatos muito intrigantes: ter sido sacristão de Padre Cícero, vendedor de bainha para foice e amigo íntimo de Maria Bonita, mulher do cangaceiro Lampião.
     Zé Paganela ficou hospedado na casa de Suvino (Antenor Lacerda), pai de Ursulão, vulgo Nanô. Maria do Rancho e Borba ficaram na casa do Bacharel. Maria ficou no cantinho das comadres, juntamente com sua parceira inseparável, Madrinlurde. Ao lado da cama de Ursulão, quem passasse por ali saberia que se tratava dos aposentos de Borba, uma vez que o colchão estava repleto de apetrechos: uma trena, um martelo, dois rolos de veda-rosca, uma chave de fenda, uma cola para cano, um chapéu de expedicionário, uma botina e as coordenadas descritas numa folha de sulfite, apresentando dicas de como se portar durante esses dias de hospedagem, tais como fugir de qualquer espécie de “tico-tico nervoso” (termo criado por Maria do Rancho) e se apoderar de todo tipo de potocas, pilhérias, mungangas e presepadas em geral para descontrair o ambiente.
     Durante o período de quase três dias, a alegria, espontaneidade e criatividade foram os ingredientes essenciais que tornaram esses momentos inesquecíveis, registrados na memória de cada um dos participantes. Dentre vários acontecimentos, alguns merecem ser descritos com minuciosidade: o fato de Borba e Rudia Monstra terem ficado badalando até altas horas da madrugada, lembrando dos episódios vivenciados por eles, afugentando o sono de Ursulina (Carina), esposa do anfitrião; enquanto isso, no outro quarto, as comadres tagarelavam e davam topadas no escuro, tentando acender a luz. No outro dia, até às 8:00 h, as duas já tinham aguado as plantas, ido à feira, feito o café e preparado o baião de dois para se juntar ao churrasco feito a quatro mãos: Moacir, sogro do Bacharel, Borba, Tio Misa e o próprio Rudia; as noites, regadas à cerveja, vinho e refrigerantes, se estendiam até tarde, enquanto Misa, apoderado de um violão e Ursulão, atracado à tanajura (instrumento de percussão), entoavam músicas de artistas do cancioneiro popular, tais como Djavan, Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Benito de Paula e outros nomes da MPB. Várias histórias eram lembradas na roda musical que se formava embaixo da mangueira, no fundo do quintal de casa. Vale ressaltar dois episódios inéditos e estranhos, dentre eles o fato de Ursulão ter descoberto, por acaso, que sua digníssima gostava de Chico Buarque. Segundo ela, as músicas desse artista transmitem uma paz, pois sua voz ecoa macio. Algo fora do normal, uma vez que para a maioria das pessoas, a primeira impressão é de puro repúdio. O outro caso espantoso foi em relação ao Borba que agora apresentava sintomas do “Complexo de Aguimar”, popularmente chamado de DAME (distúrbio do asseio matinal exagerado). Doença que atinge pessoas de várias idades, provocando um excesso de banhos, inclusive nas primeiras horas da manhã.
     A colação de grau também foi marcante. O Bacharel estava todo “entanguido” (termo nordestino que designa a rigidez do corpo, pressionado pela roupa apertada), usando uma vestimenta que mais parecia à do Padre Solimário (primo do mesmo). As fotos também formaram outros momentos hilários, o fato de Borba ter se posicionado com todo seu estilo, com uma das pernas estendidas e a outra segurando o peso do corpo, meio acocorado, mostrando todo seu equilíbrio. Trata-se de uma pose característica dele, um de seus talentos invejáveis e imbatíveis. Também não poderia ficar esquecido o momento em que os formandos lançaram os capelos ao vento. Mais de sessenta foram ao chão, mesmo assim, Ursulão foi capaz de visualizar o seu, pois era o único que possuía aquele tamanho gigantesco, fazendo jus a alcunha de “Rudia Monstra”.
     Quanto vale um sorriso frouxo, um abraço apertado, um beijo carinhoso na face, um olhar amoroso, cheio de gratidão? Momentos assim não têm preço, são imensuráveis, não podem ser medidos, ultrapassam os limites do tempo. Sei apenas que eles estão eternizados dentro de mim, como pérolas engastadas no coração.

Um comentário:

  1. Que bacana companheiro, senti o tamanho da felicidade ao ler o texto. Parabéns! Deus te abençõe

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