quinta-feira, 28 de julho de 2011

LEVITAÇÃO


     Os olhos esfuziantes, ouvidos atentos aos acordes dissonantes, pernas agitadas pelo ritmo torto e envolvente, dedos como baquetas desferindo golpes certeiros em tudo que se vê pela frente e as nuvens roçando os cabelos. Assim sou tomado pela música e levado para muito longe daqui. Para onde vou, não sei, mas sinto que os pés se desprendem do chão.
     Nesses momentos de delírio musical, muitas imagens também se apoderam desse estado de espírito trazendo recordações ainda frescas na memória: as inúmeras visitas ao Hamurabi (o maior sebo de Campo Grande/MS), garimpando raridades; os primeiros contatos, ainda no tempo das espinhas, com Metheny, Bireli, Jaco, Wes, Ritenour, Toots, Weckl, Miles, Parker, Coltrane e tantos outros consagrados artistas jazzísticos que guarneciam as prateleiras do primo Edson di Carvalho; os shows de Gil, Djavan, João Bosco e Gal, acompanhados pelos talentosos instrumentistas, Armando Marçal, Kiko Freitas, Marcelo Martins, Nelson Faria, Carlos Balla, Marcelo Mariano, Marcos Suzano, Arthur Maia, Jurim Moreira etc, todos assistidos no Palácio da Cultura, na cidade morena, durante a década de 90; os diversos cds, verdadeiras relíquias que forram a parede do meu quarto e tantas outras sensações formam o coquetel de prazer e êxtase que tomam conta da cena.
     Assombrosamente encantada, vislumbrando tal levitação, minha esposa, Carina, resolveu registrar esse momento no belo poema “Na beleza do Jazz”:
   
Nem toda boca nasceu para falar
Nem toda mão, para trabalhar
As pessoas não sabem
Meu corpo é diferente
Fica ausente quando ouço alguém tocar
A beleza da música
Do Jazz
Da Bossa Nova
Que nunca envelhecerá.

Nem toda boca nasceu para falar
Garanto que a minha degusta as notas
Ela sabe saborear
A arte da bateria harmônica
Da guitarra, do solo de baixo,
a mistura
o som o som o som
Algo diferente
O meu corpo fica ausente
Quando ouço alguém tocar. 

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