quinta-feira, 2 de junho de 2011

ACORDA, DALAI! (Conto do livro "As presepadas de Dalai", 2008)

     Eis aqui um conto do meu livro "As presepadas de Dalai", lançado em 2008.

     Sempre em busca de uma independência financeira, muito antes de obter seu próprio negócio, Dalai investiu em vários ramos de trabalho, foi bancário, vendedor, balconista de farmácia, leiteiro, padeiro e plantonista numa loja de conveniências, mas infelizmente surgiram alguns percalços, pois seu perfil não se adequava às certas exigências. Acordar cedo, por exemplo.
    As evidências neurofisiológicas sempre indicaram que o sono para ele não se trata apenas de repouso cerebral, mas uma leseira crônica profunda, tornando-se cada vez menos reativo aos estímulos sensoriais. Sua vida boêmia sempre contribuiu para o avanço do estágio denominado “Sono de pedra”, por esse motivo, juntando as noites mal dormidas ao distúrbio congênito que lhe acompanhava, ficava difícil desempenhar certas funções.
    Seu primeiro emprego foi de estagiário na fazenda “Pirituba”, em Terenos, próximo à Campo Grande. As instruções foram apresentadas:
    - Logo bem cedo vocês apartam as vacas, retiram o leite e podem despejá-lo nos tambores, depois é só colocá-los no caminhão e entregar aos nossos clientes já cadastrados – orientou o capataz.
    Dalai, com os olhos em brasa, cambaleando de sono, apenas pendia o pescoço para o lado e, com o olhar enviesado, recebia as coordenadas.
    Os bezerros o adoravam, faziam a maior festa quando ele se aproximava do curral, por volta das 11:30. Durante sua primeira semana de trabalho, outra vantagem foi a enorme produção de coalhada, com o sol a pino, o leite azedava e a única saída era esse investimento. Não durou muito para que a primeira experiência fosse um verdadeiro fracasso. Depois de sua saída, ouviram-se muitos rumores por aquelas bandas de que os bezerros morriam de saudade, berravam desconsolados, como se tivessem perdido suas mães. Dalai foi importante na vida deles.
    Como padeiro, a história não foi diferente, a vizinhança do bairro Jockey Clube ficou mais de duas semanas sem saber o que era café da manhã. As roscas e pães só saíam depois do meio-dia.
    - Isso é serviço de corno! – resmungava, com a mão na massa.
    Também não demorou muito para que ele mudasse de ramo, desta vez como plantonista em uma loja de conveniências. Seu turno começava à meia-noite e encerrava-se às seis horas. Do lado de fora uma campainha e um aviso: “Plantão 24 horas, basta dar um toque”.
    Pronto, o caos estava instalado, algumas pessoas saiam dali e passavam na farmácia, a fim de comprarem gelol e passarem nos braços, de tanto tocarem a bendita campainha; uns chutavam a porta de ferro; outros buzinavam, gritavam no megafone e muitas outras atitudes tresloucadas que acabavam acordando toda a vizinhança, menos o funcionário da conveniência.
    Certa vez, um dos clientes comunicou a polícia, preocupado em ter alguém morto no interior da loja. Enquanto o helicóptero sobrevoava o local, surgiu a cabeça de Dalai na janelinha, soltando uma pilhéria:
     - Pra que esse furdunço, é só tocar a campainha, moçada!
    Mas foi na farmácia de seu pai, José Lacerda, que aconteceu uma presepada clássica:
     - Juda, a Vanda e eu iremos a Dourados, quero que você ajude o Dalai a abrir a farmácia. Sei que você é esperto e não vai deixá-lo perder o horário.
     - Pode deixar, padrinho, eu sou um raio pra acordar cedo!
    O sol já estava rachando, o cheiro da comida começou a se esparramar pela casa, acordando-os. Já era quase meio-dia, quando Dalai e Juda resolveram cumprir a tarefa. Na cozinha, Paulina apoderava-se de um pé de cabra para tentar arrombar a porta do quarto onde eles estavam.
    O emprego de bancário já foi mais sossegado, pelo menos não precisava acordar cedo, por outro lado, os tormentos aos finais de semana eram inevitáveis. Paulina, a empregada da casa, tinha o hábito de conversar sozinha e não compreendia a diferença entre bancário e padeiro, por isso incomodava o pobre Dalai.
     - Acorda, Dalai!. Acorda, Dalai!
     - Hoje é domingo, Paulina, não tenho trabalho – respondia com uma voz pastosa.
     Não demorou meia hora para que ela voltasse a chamá-lo:
     Dalai, já está na hora!
     - Pelo amor de Deus, Paulina, hoje é domingo, criatura!
     Paulina insistiu novamente, mas dessa vez foi surpreendida por um ataque de fúria. Dalai arremessou um chinelo daqueles bem pesados em direção à vítima e só não lhe acertou em cheio porque a porta fechou-se abruptamente.
     Dalai sofreu muito até chegar a ser dono do seu próprio negócio. Conforme mencionou o grande filósofo Borba, em um de seus momentos de meditação vividos “na sédea de seu Olivívio”: “Isso que é judiar o pobre do cristão!”.

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