quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

NAVEGAR É PRECISO

     Quando Tom Jobim afirmou que esse artista é o grande "conhecedor dos caminhos", o mestre não exagerou. Excepcional melodista, ele nasceu historicamente junto com a bossa nova. As melodias inspiradas resistem ao tempo, mostrando que o verdadeiro caminho é a independência artística. Ele e a bossa nova praticamente se confundem. Estou falando de Carlos Lyra.
     Como se determinaria o ano marco da carreira de um artista da música? A primeira gravação, o primeiro disco, a primeira apresentação? Mas para um compositor, nada é mais importante do que sua primeira composição, ainda mais quando esta é interpretada, até hoje, por artistas como Caetano Veloso e Danilo Caymmi, para citar as mais recentes gravações. E é assim com “Quando chegares”. Primeira música e letra de Carlos Lyra, composta em 1954. Foi o passo inicial de uma carreira que abrilhantou a música do Brasil e a elevou, com a Bossa Nova, à categoria internacional. A bossa nova teve um Olimpo restrito, seguido de uma quantidade razoável de semi-deuses. E esse Olimpo era constituído pelos letristas Vinicius de Moraes e Ronaldo Bôscoli, por João Gilberto, o intérprete que define a batida, e por três compositores fundamentais: Tom Jobim, Carlos Lyra e Roberto Menescal. Tomando o período áureo, de meados dos anos 50 a final dos anos 60, mesmo que não houvesse Tom Jobim, teria havido Carlos Lyra. Na bossa nova, a produção de ambos se equivalem no refinamento, na qualidade harmônica, na mútua influência que se exerceram, na projeção internacional. E no fato de, junto com Baden Powell, terem se constituído na Santíssima Trindade de Vinicius, os compositores a quem o mestre dedicou suas letras mais brilhantes.
     Nesses mais de 55 anos de carreira, lançou 30 discos entre CDs e vinis, sem contar as compilações. Representou o Brasil em vários eventos internacionais, escreveu 3 livros, teve uma filha e plantou várias árvores. Ensinou violão em sua academia, se apresentou em incontável número de shows, escreveu, dirigiu, montou e foi premiado com peças teatrais adulto e infantil, no Brasil e exterior. Musicou Millôr Fernandes, Lope de Vega, Dias Gomes, Augusto Boal e Nikolai Gogol, para citar alguns. Fundou o CPC da UNE, foi diretor musical da Rádio Nacional, viveu em auto-exílio por mais de 8 anos, fez música para filmes premiados na Alemanha, Itália e Brasil. Atuou em filmes longa metragem e foi gravado por centenas de músicos, compositores e intérpretes de todo o mundo. Fora o prazer de ter como parceiros: Ronaldo Bôscoli, Geraldo Vandré, Chico de Assis, Oduvaldo Vianna Filho, Daniel Caetano, Carlos Fernando Fortes, Maria Clara Machado, Gianfrancesco Guarnieri, Nelson Lins e Barros, Francisco Cervantes, Kate Lyra, Marino Pinto, Vinicius de Moraes, Jésus Rocha, Norman Gimbel, Ruy Guerra, Heitor Valente, Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro, Zé Keti, Millôr Fernandes, Daltony Nóbrega, Dolores Duran, Paulinho Tapajós, Roberto Menescal e Joyce.
     Há quem pense que, depois das canções antológicas que Carlos Lyra fez nos anos 60 e 70, sozinho ou em parceria com Vinicius ele estaria vivendo desse glorioso passado. Mas não. Ele não parou de compor. Nem de cantar. Só que, por um desses inexplicáveis mistérios do showbusiness nacional há menos espaço reservado para ele do que para alguns paraquedistas musicais sem talento nem tempero. Ele é um mito, embora não se comporte assim. Talvez por ser simples e singelo demais. Estamos acostumados com a idéia de que mito é excêntrico. Extravagante. Mito não pode ser um cara que fala com a gente de igual para igual. Mito não pode ser pontual. Mito tem que beber, fumar, cheirar. Ele não faz nada disso. Faz música, apenas, música de verdade. É um mito que o Brasil, infelizmente, ainda não descobriu.
     Ação, sentimento, talento, etc, tudo isso é coisa ligada à atuação de um dos maiores artistas que a música popular brasileira produziu em todos os tempos. Ele é tão importante que nem as péssimas relações de consumo tão evidentes ultimamente conseguem destruir a obra de Carlos Lyra. Sei que as gravadoras nasceram para dar lucros, como uma quitanda qualquer, e que não têm qualquer compromisso com a verdade da chamada MPB: Tanto que eu, ouvinte de música - por necessidade fisiológica - não perco tempo com banalidades que a mídia oferece. Ouço músicas dos meus discos, selecionadas por mim. E seleciono “Primavera", "Minha namorada”, "Canção que morre no ar", "Feio não é bonito", "Saudade fez um samba", “Marcha da quarta-feira de cinzas", "Aruanda", "Quem quiser encontrar o amor", "Influência do jazz", "Maria Ninguém” e tantas outras canções de Carlos Lyra que a gente pode ouvir na certeza de que está enriquecendo a alma e ajudando o próximo a ser mais sensível.
     O poeta português Fernando Pessoa tem razão, “Navegar é preciso”, por isso não querendo navegar sozinho nesse mar imenso da cultura brasileira, resolvi compartilhar meu conhecimento literário e musical trazendo de Campo Grande um vasto acervo, logo que cheguei neste município, em junho de 2004.
     Ao conhecer o Diretor da Rádio União FM, Elizeu Nascimento, também colunista do site Médici em foco, tive a oportunidade de ter meu espaço no rádio, através do programa “MPB de A a Z”, que era transmitido pelas ondas sonoras da 87,9, de segunda à sexta, das 14:00 às 16:00 h. Por ali fiquei, durante o ano de 2005, oferecendo à população uma vasta seleção de sucesso da música popular brasileira. Em fevereiro de 2006 continuei resgatando nossos valores culturais, desta vez por intermédio da Rádio Rondônia, com o Programa FMPB, das 13:00 às 14 h, de segunda à quinta (na sexta o programa era voltado para o jazz), que durou até fevereiro de 2010. Nas quintas-feiras acontecia um quadro especial, o Palco MPB, onde trazia informações sobre a vida, a obra e a trajetória dos renomados artistas brasileiros. Estou a quase um ano fora do rádio, mas ainda mantenho acesos o fascínio e a admiração pela nossa cultura. Continuo pesquisando, farejando novos tesouros, de ouvidos sempre atentos, como radares que captam as ondas sonoras que caem na milimétrica peneira do meu senso crítico aguçado, conservando toda a inquietação que me faz permanecer no caminho certo, na contra-mão do comercialismo. 
     Sei que não se pode salvar todos das garras da mesmice comercial, mas tenho feito minha parte durante todos esses anos, seja como professor de Literatura Brasileira, desde 1992, seja como radialista, admirador, pesquisador e defensor da nossa arte. Não sei ainda por quanto tempo ficarei distante desse veículo de comunicação, mas uma coisa é certa, continuarei contribuindo para manter acesa toda a vitalidade da nossa cultura, na intenção de fazer florescer principalmente nos corações da nossa gente o gosto pela MPB.
     Aqueles que quiserem embarcar nessa viagem, podem se achegar e tomar seus lugares. Apertem os cintos!

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